Saúde Gengival
Retração gengival tem tratamento? O que a ciência diz sobre o enxerto de gengiva
Meta-análises mostram que as cirurgias de recobrimento radicular conseguem cobrir a raiz exposta, e que a combinação de enxerto de tecido conjuntivo com reposicionamento da gengiva tende a dar resultados mais completos e estáveis ao longo dos anos.
· 5 min de leitura · Baseado em evidência científica · Meta-análises · PubMed 30277568; 35451068; 30980404; 32654220
Você já notou que um dente parece mais “comprido” que os outros, ou que apareceu uma faixa amarelada perto da gengiva? Muitas vezes isso é retração gengival (também chamada de recessão gengival): a gengiva desce e deixa à mostra uma parte da raiz do dente, que normalmente fica protegida. Além da questão estética, a raiz exposta pode ficar sensível ao frio e mais difícil de limpar. A boa notícia é que existem cirurgias específicas para recobrir essa raiz, e elas foram estudadas em profundidade. Nesta matéria, reunimos o que meta-análises recentes — estudos que somam e analisam em conjunto os resultados de vários ensaios clínicos — mostram sobre esse tratamento.
O que é a retração gengival e por que ela importa
A gengiva saudável envolve o dente como uma gola justa, cobrindo a raiz. Na retração, a margem da gengiva se desloca em direção à raiz, deixando exposta uma superfície que não tem a proteção do esmalte. Os estudos definem a retração justamente assim: a exposição da superfície da raiz na boca, por causa do deslocamento da margem gengival abaixo do limite entre a coroa e a raiz.
Esse problema costuma estar ligado à piora da estética do sorriso, como destaca uma revisão Cochrane (um dos tipos de revisão mais rigorosos da área da saúde). Também pode trazer sensibilidade e dificultar a higiene na região, favorecendo o acúmulo de biofilme (a antiga placa bacteriana). Por isso, além de tratar a área afetada, o dentista procura entender o que provocou a retração em cada caso, para evitar que ela continue avançando.
Como funciona a cirurgia de recobrimento da raiz
As técnicas usadas para cobrir a raiz exposta fazem parte da chamada cirurgia plástica periodontal. A mais conhecida é o retalho posicionado coronalmente: o dentista solta delicadamente a gengiva vizinha e a reposiciona mais para cima, cobrindo a raiz. Essa técnica pode ser feita sozinha ou associada a um enxerto.
O enxerto mais estudado é o de tecido conjuntivo subepitelial: uma pequena porção de tecido, geralmente retirada do céu da boca do próprio paciente, é colocada por baixo da gengiva reposicionada. Ela funciona como um reforço, ajudando a cobrir a raiz e a deixar a gengiva mais espessa. Existem ainda alternativas, como matrizes de colágeno, derme acelular (substitutos do tecido do próprio paciente) e proteínas derivadas da matriz do esmalte, que estimulam a cicatrização.
O que as meta-análises mostram sobre os resultados
A revisão Cochrane publicada em 2018 reuniu 48 ensaios clínicos randomizados (estudos em que os pacientes são sorteados para receber uma ou outra técnica) com acompanhamento mínimo de 6 meses. A conclusão foi que o enxerto de tecido conjuntivo, o retalho reposicionado sozinho ou associado a outros biomateriais e a regeneração tecidual guiada podem ser usados para tratar retrações isoladas ou múltiplas. Quando o objetivo é cobrir a raiz e também ganhar gengiva mais firme (a chamada gengiva queratinizada), o enxerto de tecido conjuntivo mostrou uma leve vantagem. Entre os substitutos, a derme acelular foi o que mais se aproximou dos resultados do enxerto, embora com evidência ainda fraca.
Uma meta-análise em rede de 2022 — tipo de estudo que compara várias técnicas ao mesmo tempo — analisou 38 estudos, com 830 pacientes e 1.265 retrações em dentes isolados. A combinação de enxerto de tecido conjuntivo com retalho reposicionado ficou classificada como a abordagem mais eficiente para cobrir completamente a raiz e para ganhar gengiva queratinizada, aos 6 e aos 12 meses. Os autores concluíram que essa combinação pode ser considerada a referência para tratar retrações em dentes isolados.
O resultado se mantém com o tempo?
Uma dúvida comum é se a gengiva “volta a descer” depois da cirurgia. Uma meta-análise de 2019 reuniu 15 ensaios clínicos randomizados com acompanhamento de pelo menos 2 anos para responder a isso. Quando o retalho reposicionado foi feito sozinho, a porcentagem de raiz coberta diminuiu com o tempo, em média cerca de 7%. Já quando o retalho foi combinado com o enxerto de tecido conjuntivo, não houve diferença significativa entre os resultados de curto e de longo prazo — ou seja, o recobrimento se manteve estável.
Ainda segundo esse estudo, a combinação com o enxerto teve melhor desempenho a longo prazo do que o retalho sozinho, tanto na chance de cobrir a raiz por completo quanto no ganho de gengiva queratinizada. Uma gengiva mais espessa e firme tende a resistir melhor às agressões do dia a dia, o que ajuda a explicar essa estabilidade.
Estética, satisfação e pós-operatório
Uma meta-análise em rede de 2020 avaliou 26 ensaios clínicos com 867 pacientes e 1.708 retrações tratadas, olhando para o que mais importa ao paciente: a aparência final, a satisfação e o desconforto após a cirurgia. As técnicas com enxerto de tecido conjuntivo tiveram desempenho estético geral superior e foram associadas a maior satisfação dos pacientes.
O mesmo estudo mostrou dois pontos de atenção, importantes para uma decisão consciente. Primeiro, a integração do enxerto pode deixar a textura e a cor da gengiva um pouco menos naturais do que quando se usa apenas o retalho. Segundo, as técnicas com enxerto causaram mais desconforto no pós-operatório, já que envolvem uma segunda área operada (de onde o tecido é retirado). Por isso, a escolha da técnica é sempre feita caso a caso, pesando benefícios e incômodos junto com o paciente.
Em resumo
A retração gengival tem tratamento, e ele é bem estudado. As meta-análises convergem: as cirurgias de recobrimento conseguem cobrir a raiz exposta, e a combinação do enxerto de tecido conjuntivo com o reposicionamento da gengiva tende a oferecer resultados mais completos, estáveis ao longo dos anos e esteticamente satisfatórios, ainda que com um pós-operatório um pouco mais desconfortável.
Cada retração, porém, tem sua causa, seu tamanho e suas características, e nem todo caso precisa de cirurgia. Se você percebeu a gengiva recuando ou sente sensibilidade perto da raiz, agende uma avaliação individual com o dentista: ele vai identificar a origem do problema, orientar a higiene adequada e indicar se há necessidade de tratamento e qual a abordagem mais adequada para você.
Fontes
- Chambrone L et al. — Root coverage procedures for treating localised and multiple recession-type defects (Cochrane Database Syst Rev, 2018)
- Chambrone L et al. — Does the subepithelial connective tissue graft in conjunction with a coronally advanced flap remain as the gold standard therapy for the treatment of single gingival recession defects? A systematic review and network meta-analysis (J Periodontol, 2022)
- Dai A et al. — Long-term stability of root coverage procedures for single gingival recessions: A systematic review and meta-analysis (J Clin Periodontol, 2019)
- Cairo F et al. — Aesthetic-And patient-related outcomes following root coverage procedures: A systematic review and network meta-analysis (J Clin Periodontol, 2020)
Saiba mais: Saúde gengival: a página da Todescan Jr
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